Começamos e acabamos mundos todos os dias, várias vezes por dia, de minuto em minuto. A menina de vestido vermelho agarrada à mão da mãe, dando pequenos passinhos ao longo dos corredores do IPO. Que passinhos tão incertos, menina de vestido vermelho, que mundo o teu menina, que sorris feliz enquanto caminhas nestes corredores da dor. De que cor seriam os teus cabelos, menina? Tinhas tranças de certeza.
E o gato enroscado ao sol gelado da manhã, de olhos meio fechados meio abertos? Espreita o passarinho saltitante, confiante, ignorante da vida. Ai, que mundo tão pequenino passarito!
Os amantes jovens, demasiado jovens que se beijam como se não fosse haver dia seguinte, ali, no meio da praça, enquanto os velhotes do primeiro café os olham num misto de saudade e inveja. É tão longo o mundo deles, tão demorado.
Na praia sem areia pelas ondas gigantes que a devoraram não há gaivotas. Estão longe as gaivotas... se calhar vão salvar o passarinho distraído, ou fazer um voo rasante aos amantes jovens. Ela assusta-se e por um momento separam-se e os velhotes retomam o café que arrefeceu. Voam longe as gaivotas. Vão povoar os sonhos da menina do vestido vermelho que continua a sorrir. Sempre.
Filomena, janeiro 12