Beijinhos a todos os que passam por aqui
Falar em segredo, guardar segredo, fazer segredo, partilhar o segredo, efabular, misturar a fantasia com a realidade... em segredo
Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
de amor e de rosas
Toma essas rosas de Dezembro agora,
Que ao frio, à chuva, esta manhã colhi,
Elas trazem humildes, lá de fora,
Saudades da montanha até aqui.
Hão de morrer d’aqui a pouco, embora!
Em cada curva, onde o perfume ri,
Trazem mais o terno duma hora,
que um frágil coração bateu em ti.
Aceita-as pois, mas, como a vida é breve,
E, um dia, peno, leve e branca a neve,
Há-de cair sobre o teu peito em flor,
(Não vá Dezembro algum murchar-te o encanto)
Deixa tu que eu te colha agora, enquanto
Tens sol, tens mocidade e tens amor.
Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
Sete luas
Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010
Acreditei no mar
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
Um bom Natal para todos
Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da terra. Era o Natal. e por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite, muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Domingo, 19 de Dezembro de 2010
Onde nos leva uma noite de nevoeiro
Pisamos o chão que estala de gelo. Caminhamos de mãos dadas pela alameda que a noite e o nevoeiro cobrem de uma brancura densa. Passamos a cortina e aos poucos vemos a casa que nos aguarda.
Está frio, mas ficamos parados agora, num abraço quente e longo. Beijas-me devagar saboreando a minha pele. Entramos na casa, onde um rosa de luz nos acolhe.
Então estamos em frente um do outro, e lá fora, há um leve restolhar de asas que batem.
Somos livres.
Filomena, Dezembro, 10
Sábado, 18 de Dezembro de 2010
É Natal
É Natal,
a noite mais doce de todas as noites
no sorriso lindo do jesus menino
E no céu,
mil estrelas se acendem por fim
nesta noite em que o frio é de um branco de luz
É Natal,
e Maria olha e sonha,toda ela ternura
velando o seu filho
Filomena, Dezembro, 10
Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
hoje
Queria de novo o meu coração. Aquele coração que ninguém domava, que a ninguém se dava, porque era assim o meu coração. Selvagem mas puro, livre mas bom. Um coração com asas de ouro. Era assim o meu coração.
Filomena, Dezembro, 10
Domingo, 12 de Dezembro de 2010
O que os outros julgam
Os outros dizem que nunca nos amámos, que foi só desejo o que sentimos e que o desejo logo desaparece, como uma labareda bem depressa extinta. Os outros dizem que a nossa história não teve nada de extraordinário, foi mais uma história sem grandes memórias. E passam por nós com um sorriso leve nas bocas com trejeitos de algum desprezo e comiseração.
E nós entramos no olhar um do outro, a viver esse outono que o sol aqueceu como se do verão se tratasse. E só nós sabemos do fogo que não morreu. Deixamos que os outros pensem que tudo sabem e que nos tratem como marionetas com os fios muito cedo cortados.
Afinal, fomos tão verdadeiros que os outros pensaram que era mentira.
Filomena, Dezembro, 10
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
0 sorriso brincando ao sol com as romãs
A difícil pergunta
Como se recusa o amor?, perguntavas,
o sorriso brincando ao sol com as romãs.
o sorriso brincando ao sol com as romãs.
Da maneira mais simples
É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.
e se lhe dá nome.
às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.
( Eugénio de Andrade )
Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010
e não sei onde vou
... (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
Geraldo Bessa Victor
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
Geraldo Bessa Victor
Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Princípio
Acontece que não quero abrir mão de nada. Quero tudo a que tenho direito nesta história de segredos e revelações. Quero ser feliz, mesmo por breves instantes. Posso, não posso?
Deixa o sino tocar, deixa que o céu se abra em arco-íris, deixa que a vida pare um segundo que seja.
Deixa tudo e leva-me contigo.
Filomena, Dezembro, 10
Domingo, 5 de Dezembro de 2010
Hoje
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
( Mia Couto )
Sábado, 4 de Dezembro de 2010
Nostalgia de Natal
Lembro com saudade os Natais de antigamente.
O pinheiro era verdadeiro e, lá íamos pelos pinhais, escolher o que nos parecia mais parecido com o rei dos pinheiros de Natal.
Trazíamos para casa o cheiro da resina e dava gosto enfeitá-lo. Acabávamos sempre com bocadinhos de algodão que espalhávamos, ao acaso, e que era a neve de então.
Íamos também buscar o musgo fresco, que trazíamos em pedaços de verde para fazer o presépio. E o presépio era grande, assim como uma pequena aldeia, por onde passava um rio com água verdadeira! e no centro de tudo uma cabaninha com tecto de colmo onde descansava o Menino "em palhas deitado", amorosamente olhado por Maria, José, pela vaca e pelo burrinho... e por nós, crianças rabinas, que sustínhamos a respiração ao olhar a Sagrada Família.
Por cima da cabana, descansava a estrela.
E havia arranjos natalícios com azevinho, a flor de Natal. Quantas vezes picávamos o nariz!
As casas cheiravam a um misto de terra fresca, resina ,canela, mel e laranjas.
Havia um calor especial e diferente. Havia um sentimento de respeito misturado com uma alegria verdadeiramente infantil.
E chegava a Noite de Natal, o pinheiro era venerado e o presépio respeitado. Nessa noite, erguíamos as mãozitas lambuzadas de açúcar e baunilha e rezávamos uma pequena oração que o Avô nos murmurava.
Era a festa da Família, era estar com os primos e os tios e rir com a inocência pura e única dos tempos da infância.
Filomena, Dezembro, 10
Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010
Amor
Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.
E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.
Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade.
Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.
«Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.
«Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.
Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto, é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.
(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)
( António Mega Ferreira )
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