quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Boa tarde!

Seda


O instante alonga-se nos teus braços, perdura nos teus beijos, fica na minha pele, ouve-se-se no que não dizemos. Está aqui o instante. Assim, nos olhos que se perdem nos olhos do outro e cresce ainda mais, depois de satisfeitos todos os desejos. O instante é maior. O instante é de seda. Pura.


Filomena, Novembro 09

Viesses tu, Poesia

Viesses tu, Poesia
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo froam graça, aparição, presença,
sinal...

(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
mortas à primeira hora.)

Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...


( Sebastião da Gama )


segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Bom fim de tarde

Palavras


Porque haveria agora de haver palavras, se nunca precisámos delas quando havia tanto para dizer?
Não gastámos as palavras, não as usámos... chegava-nos e cegava-nos a paixão. Gastámos a paixão até nada mais haver.Só palavras. Mas essas não as queremos.
Estão à venda, as palavras, estão a saldo, estão aí ao desbarato... é usar e abusar... mas depois não se venham queixar! Acaba tudo. Da mesma forma. E sobram as palavras, a magoar ainda mais.


Filomena, Novembro 09


A PALAVRA

As palavras só magoam se forem usadas como mercadoria
a mercadoria esgota-se
a palavra dura para todo o sempre

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Novembro de 2009

domingo, 8 de Novembro de 2009

Hoje

Somos todos tão estranhamente iguais. E nessa igualdade, nessa semelhança talvez esteja a nossa (in)diferença

Filomena, Novembro 09

(IN)DIFERENÇA

Na diferença interior reside a nossa plena igualdade
igualdade na diferença
na diversidade
sem indiferença

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Novembro de 2009


Vem ver-me antes que eu morra de amor - o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer - mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite -
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como um músculo tenso
escondido sob a pele - mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa -
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.


( Maria do Rosário Pedreira )

sábado, 7 de Novembro de 2009

águas


Já não me perco no mar de águas turvas que são os teus olhos.
Flutuo agora em águas límpidas e serenas.
Tranquilas são as águas por onde navego.


Filomena, Novembro 09

(O meu coração, esse, chora secretamente pelo turbilhão e pela tempestade das ondas.)

DIÁLOGO ÍNTIMO

Coração meu intempestivo
que do sereno juízo
foge sem tino e sem ciso
porque navegas em águas
que não são turvas
tranquilas
límpidas
que de teus olhos
deixaram de ver os escolhos

Ai se te respondesse
deste imenso turbilhão
como os segredos que guardo
são minha contradição
como é bom o galopar
meu docel e pulsação
em que não conheço horas
nem destino
ocasião
nesta vontade de ser
e não ser
sem dizer não

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Novembro de 2009


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Bom fim-de-semana ! :)

Úrsula


Eu sei que não vou sair disto tudo muito bem vista. Eu sei que devia ser uma rapariga muito
simpática e bem educada, sim senhora, não senhora, ora essa, faça favor, obrigadinha e desculpe.
Maria João uma sua criada.
Como a Vitória do lado, por exemplo.
Um poço de virtudes, a Vitória do lado.
Às vezes chego a pensar que o poço é tão profundo, mas tão profundo, que se um dia a Vitória do lado cai lá para dentro, se apaga no meio de tanta virtude.
Bom, mas isso é lá com ela.
As minhas virtudes, coitadas, é que não são coisa que se veja a olho nu. Acho mesmo que só a microscópio se deve conseguir descobrir alguma.
Para lá de não ser nenhum poço de virtudes (nem charco, quanto mais poço) tenho de confessar que sou feiota. Para já sou alta de mais para os meus 14 anos o que faz, por um lado, que a malta toda lá da escola comece com aquelas graças parvas, “então como é que está o tempo lá em cima?”, “quando chegares cá abaixo fecha o pára-quedas”, coisas assim, vocês sabem: e, por outro lado, faz com que cada vez que a minha mãe ou o meu pai (que nisto, benza-os Deus!, são iguaizinhos) me apresentam a qualquer desconhecido lá das relações deles, avancem logo com a frase “por este andar não sei onde é que ela vai parar”.
Tenho óculos graduados, tenho a mania dos livros, e sobretudo do teatro que vai ser a carreira em que eu vou brilhar para o resto da vida. Nada me dá mais prazer do que decorar tiradas enormes de peças e depois dizê-las diante do espelho, mãos para cima, mãos para baixo, mãos a bater no peito, mãos a bater na testa, desmaios q. b. (este q.b. quer dizer “quanto baste” e aprendi no livro de receitas da minha mãe, o que prova que em toda a parte se aprende...).
É claro que quando falo no meu destino de actriz, o Gil Eanes diz sempre que só se me cortarem as pernas ao meio, porque nunca viu nenhuma ingénua com um metro e setenta, a ter de se enrolar toda para conseguir poisar a cabeça a chorar no ombro do seu amado. Mas o Gil Eanes é parvo, não conta. E, para além de ser parvo, acho que nunca entrou num teatro em dias da vida dele.
Devo ainda dizer que não sou lá muito simpática. Quer dizer: não sou daquelas que por tudo
e por nada (quase sempre por nada) andam às festinhas, aos beijinhos, ai que linda que tu és, ai que eu gosto tanto de ti, tens calendários para troca, coisas assim. Não, isso realmente eu não sou.



( Alice Vieira )



quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

no more secrets

da certeza


Ela tem agora a certeza daquilo que quer, daquilo que a espera, daquilo que pode ter. Tem a certeza do que o futuro lhe reserva. Foi preciso muito tempo para ter essa certeza, foi preciso muito tempo para poder ver claramente à sua volta. Foi preciso ficar cega para depois ver com toda a nitidez. Foi preciso passar pela dor e pela incerteza para poder ter paz. Finalmente. Foi preciso uma longa noite para um amanhecer de luz azul brilhante.
Aqui. O caminho.


Filomena, Novembro 09

( quantas vidas são precisas para encontrarmos o caminho?)

Para encontrarmos o caminho são precisas tantas vidas quantas a vida as tem!

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Novembro de 2009

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Boa tarde!

Mar

Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No búzio do areal...
Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado...
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.


( Miguel Torga )


MAR

Meu búzio
meu mar
enxoval
meu tamanho temporal
minha vontade de sal
meu sonido
arraial
és um imenso coral
de vozes
no meu estendal
vaga de fundo
areal
horizonte
universal
és sem ter mal
nem o tal
fim que se possa dizer
que mais não fica por escrever

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 4 de Novembro de 2009